{"id":14060,"date":"2019-08-01T13:25:13","date_gmt":"2019-08-01T13:25:13","guid":{"rendered":""},"modified":"2019-08-01T13:25:13","modified_gmt":"2019-08-01T13:25:13","slug":"","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.fetagpi.org.br\/?p=14060","title":{"rendered":"Por uma vida livre de todas as formas de viol\u00eancia, sem racismo e sem sexismo"},"content":{"rendered":"<div id=\"js_a\" class=\"_5pbx userContent _3576\" data-testid=\"post_message\" data-ft=\"{&quot;tn&quot;:&quot;K&quot;}\">\n<p>Nas milhares de mulheres do campo, das \u00e1guas e das florestas, Margarida vive! De todos os cantos do Brasil, elas marcham em Bras\u00edlia por justi\u00e7a, igualdade e paz no campo e na cidade.<\/p>\n<p>12 de agosto de 1983. Naquele dia, a mando de fazendeiros e pelas m\u00e3os de pistoleiros armados, Margarida Maria Alves seria assassinada na porta da sua casa, em frente ao marido e ao filho. Uma tentativa brutal de silenciar uma l\u00edder que ousou romper com os padr\u00f5es de g\u00eanero e, por doze anos, presidiu o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Para\u00edba, denunciando o abuso e o descumprimento dos direitos de trabalhadoras(es) na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Passados quase 36 anos do crime, Margarida permanece viva, como s\u00edmbolo de resist\u00eancia, nas milhares de mulheres do campo, das \u00e1guas e das florestas que, assim como ela, preferem viver da luta que padecer na submiss\u00e3o. Como n\u00e3o podia deixar de ser, o enfrentamento a todas as formas de viol\u00eancia \u00e9 um dos eixos centrais de den\u00fancia, debate e proposi\u00e7\u00e3o que a Marcha das Margaridas 2019 traz.<\/p>\n<p>Nas muitas formas em que se expressam e desde 2006 tipificadas pela lei Maria da Penha (Lei n\u00ba 11.340), como f\u00edsicas, psicol\u00f3gicas, sexuais, patrimoniais e morais, as viol\u00eancias contra mulheres comprometem a liberdade e autonomia femininas. Articuladas a outras formas de opress\u00e3o, discrimina\u00e7\u00e3o e desigualdade, como as de ra\u00e7a, etnia, classe e orienta\u00e7\u00e3o sexual, deixam marcas profundas na vida das mulheres, atingindo, de forma mais acentuada, as negras, ind\u00edgenas, l\u00e9sbicas, pobres, quilombolas e camponesas.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia ganha contornos sexistas quando atingem as mulheres pelo simples fato de serem mulheres, se caracterizando como qualquer conduta que discrimine, agride, maltrate ou obrigue as mulheres a fazerem algo (ou a deixarem de fazer). Um dos marcos legais de enfrentamento ao sexismo foi a tipifica\u00e7\u00e3o do feminic\u00eddio (Lei 13.140\/2015), transformando em crime hediondo &#8211; com maior reprova\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o por parte do Estado -, assassinatos de mulheres decorrentes de viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar e menosprezo ou discrimina\u00e7\u00e3o \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de ser mulher.<\/p>\n<p>Como demonstram in\u00fameros estudos, apesar dos avan\u00e7os legais, a escalada da viol\u00eancia permanece atingindo as mulheres de forma perversa, tanto no ambiente familiar, quanto nos espa\u00e7os p\u00fablicos e de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, seja nos locais de trabalho, nas cooperativas, nos sindicatos ou mesmo em igrejas, sendo das mulheres negras, os piores indicadores sociais e econ\u00f4micos no Brasil.<\/p>\n<p>Algumas express\u00f5es das viol\u00eancias contra mulheres rurais, negras e ind\u00edgenas, no campo, na floresta, nas regi\u00f5es ribeirinhas e nos quilombos, mesmo os equipamentos de atendimento \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher mais dispon\u00edveis, como as Delegacias da Mulher, est\u00e3o muito longe de existir e, quando existem, n\u00e3o t\u00eam funcion\u00e1rias(os) qualificadas(os) para atendimento, assim como tamb\u00e9m a mulher tem dificuldade de deslocamento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das viol\u00eancias f\u00edsicas, mulheres rurais enfrentam uma s\u00e9rie de viol\u00eancias simb\u00f3licas e materiais, como a invisibiliza\u00e7\u00e3o e desconsidera\u00e7\u00e3o de suas contribui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. Foram elas as mais afetadas pelo aumento da pobreza e extrema pobreza rural na Am\u00e9rica Latina entre 2007 e 2014 (FAO, 2019). Mesmo constituindo importante parte da for\u00e7a de trabalho das fam\u00edlias e respons\u00e1veis por produzir mais da metade de todos os alimentos do mundo, apenas 30% s\u00e3o donas formais de suas terras, 10% conseguem ter acesso a cr\u00e9dito e 5% recebem assist\u00eancia t\u00e9cnica (ONU BRASIL, 2017). Em geral, suas atividades n\u00e3o s\u00e3o suficientemente reconhecidas, sendo classificadas como \u201cajuda\u201d ou \u201ccomplemento\u201d \u00e0 fam\u00edlia, o que limita seu acesso aos rendimentos e o poder de interfer\u00eancia sobre os rumos da produ\u00e7\u00e3o e da comercializa\u00e7\u00e3o, ainda sob dom\u00ednio masculino.<\/p>\n<p>Para Luiza Cavalcanti, mulher preta, agricultora agroecol\u00f3gica, educadora popular e ativista, \u00e9 fundamental a compreens\u00e3o de como a escravid\u00e3o foi uma dimens\u00e3o estruturadora da sociedade brasileira, fundada na explora\u00e7\u00e3o dos povos negros e ind\u00edgenas, cujos reflexos permanecem incidindo sobre a vida das mulheres:<\/p>\n<p>\u201cFalar da viol\u00eancia que nos afeta \u00e9 lembrar de tantas coisas\u2026 Das que nos precederam, de como n\u00f3s fomos arrancadas de nossa ancestralidade, arrancadas da \u00c1frica, jogadas aqui para viver tantas viol\u00eancias\u2026 O navio negreiro, ser tratadas pior que qualquer tipo de animal e n\u00e3o como seres humanos\u2026 Como continuamos sendo tratadas ainda hoje, ora nas casas grandes, ora nas favelas verticais, nas ditas \u2018casas de fam\u00edlias\u2019, como empregadas dom\u00e9sticas, como oper\u00e1rias de f\u00e1brica, como qualquer profissional&#8230; Sofrendo ass\u00e9dio sexual, moral, institucional e toda forma de viol\u00eancia que atinge nossos corpos&#8221;.<\/p>\n<p>\u201cAs mulheres s\u00e3o assassinadas todos os dias por aqueles que deviam am\u00e1-las e proteg\u00ea-las&#8221;. Lu\u00edza Cavalcante<\/p>\n<p>De igual modo, Fran Paula, educadora da ONG Fase e do coletivo \u201cPretas da Agroecologia\u201d, avalia que os reflexos da escravid\u00e3o se manifestam de diversos modos no dia a dia, \u201cv\u00e3o desde o genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra, da juventude negra, do encarceramento em massa dessa popula\u00e7\u00e3o, do baixo acesso ao ensino p\u00fablico, \u00e0s universidades. Os dados de pobreza e fome no Brasil escancaram o racismo refletido dessa sociedade\u201d, considera.<\/p>\n<p>Por isso, como defende Lu\u00edza, \u00e9 essencial o reconhecimento de que os feminismos s\u00e3o plurais, de que h\u00e1 um feminismo preto e um feminismo ind\u00edgena espec\u00edficos e que precisam ser considerados e ouvidos.<\/p>\n<p>\u201cA gente compreende que \u00e9 um trabalho que precisa ser feito, em todo e qualquer instante e em todo lugar, esse de empoderamento de nossas vozes, j\u00e1 que a gente viveu s\u00e9culos de silenciamento. Sair desse lugar de sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, dentro de um sistema em que o modelo de autoestima \u00e9 branco, no qual quem tem poder de fala, de ser apresentado como pessoa, \u00e9 uma pessoa branca&#8230; Enquanto a gente tiver um pa\u00eds negando a nossa identidade, a nossa ancestralidade, destruindo nossos s\u00edmbolos religiosos e todas as viola\u00e7\u00f5es acontecendo, \u00e9 muito dif\u00edcil haver supera\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso ocorrer uma rea\u00e7\u00e3o popular negra e ind\u00edgena muito grande, para que a gente mude a postura de um pa\u00eds constru\u00eddo com bases escravocratas, racistas, machistas, essas coisas ruins todas\u201d, avalia.<\/p>\n<p>J\u00e1 para Fran Paula, se h\u00e1 o reconhecimento de que a sociedade \u00e9 machista e racista, \u00e9 preciso reconhecer que mulheres negras s\u00e3o duplamente violentadas, por sua condi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e pela condi\u00e7\u00e3o racial. \u201cDesta forma, \u00e9 importante que os movimentos sociais, os movimentos de luta que hoje atuam no Brasil tenham essa compreens\u00e3o e incluam nas suas pautas, bandeiras de luta, eixos de atua\u00e7\u00e3o, a\u00e7\u00f5es que visam n\u00e3o s\u00f3 debater e refletir sobre os processos de viol\u00eancia das mulheres negras, mas sobretudo agir para superar os conflitos e viol\u00eancias sofridas por essas mulheres negras. E, ao pensarem projetos, modelos sustent\u00e1veis, igualit\u00e1rios para o pa\u00eds, reconhe\u00e7am que a quest\u00e3o racial no Brasil \u00e9 t\u00e3o fundamental de ser priorizada quanto a luta de classes\u201d reivindica.<\/p>\n<p>\u201cOs \u00edndices de viol\u00eancia contra mulheres s\u00f3 ser\u00e3o diminu\u00eddos com a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade de g\u00eanero, de ra\u00e7a e de outras formas de opress\u00e3o contra mulheres\u201d.<\/p>\n<p>Denunciar para enfrentar<br \/>No contexto atual, de enorme retrocesso das conquistas alcan\u00e7adas pela luta hist\u00f3rica das mulheres, milhares de Margaridas v\u00e3o ocupar as ruas de Bras\u00edlia, nos pr\u00f3ximos 13 e 14 de agosto, pressionando o Estado Brasileiro a assumir a responsabilidade de garantir o bem-estar das mulheres. S\u00e3o algumas reivindica\u00e7\u00f5es: a garantia de equipamentos e recursos para o enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia no meio rural; a promo\u00e7\u00e3o de autonomia econ\u00f4mica para as mulheres; o fortalecimento das inst\u00e2ncias de participa\u00e7\u00e3o social para avan\u00e7ar no enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia; o cumprimento exemplar da Lei Maria da Penha, combatendo as tentativas que visam fragilizar seu texto e aplica\u00e7\u00e3o; a educa\u00e7\u00e3o de qualidade, que reconhe\u00e7a e respeite a diversidade, debata as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e construa valores antirracistas, de paz e n\u00e3o viol\u00eancia, de igualdade entre homens e mulheres e de respeito \u00e0s pessoas LGBTs.<\/p>\n<p>Rumo \u00e0 Marcha das Margaridas 2019<\/p>\n<p>A Marcha das Margaridas \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o protagonizada pelas mulheres, realizada pela CONTAG, Sindicatos e Federa\u00e7\u00f5es filiadas \u00e0 Confedera\u00e7\u00e3o, e apoiada por v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es parceiras.<\/p>\n<p><a class=\"_58cn\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/hashtag\/marchadasmargaridas2019?source=feed_text&amp;epa=HASHTAG\" data-ft=\"{&quot;type&quot;:104,&quot;tn&quot;:&quot;*N&quot;}\"><span class=\"_5afx\"><span class=\"_58cl _5afz\">#<\/span><span class=\"_58cm\">MarchadasMargaridas2019<\/span><\/span><\/a><br \/><a class=\"_58cn\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/hashtag\/margaridasemmarcha?source=feed_text&amp;epa=HASHTAG\" data-ft=\"{&quot;type&quot;:104,&quot;tn&quot;:&quot;*N&quot;}\"><span class=\"_5afx\"><span class=\"_58cl _5afz\">#<\/span><span class=\"_58cm\">MargaridasemMarcha<\/span><\/span><\/a><br \/><a class=\"_58cn\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/hashtag\/nossomosacontag?source=feed_text&amp;epa=HASHTAG\" data-ft=\"{&quot;type&quot;:104,&quot;tn&quot;:&quot;*N&quot;}\"><span class=\"_5afx\"><span class=\"_58cl _5afz\">#<\/span><span class=\"_58cm\">NossomosaCONTAG<\/span><\/span><\/a><br \/><a class=\"_58cn\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/hashtag\/mulheres?source=feed_text&amp;epa=HASHTAG\" data-ft=\"{&quot;type&quot;:104,&quot;tn&quot;:&quot;*N&quot;}\"><span class=\"_5afx\"><span class=\"_58cl _5afz\">#<\/span><span class=\"_58cm\">Mulheres<\/span><\/span><\/a><br \/><a class=\"_58cn\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/hashtag\/rurais?source=feed_text&amp;epa=HASHTAG\" data-ft=\"{&quot;type&quot;:104,&quot;tn&quot;:&quot;*N&quot;}\"><span class=\"_5afx\"><span class=\"_58cl _5afz\">#<\/span><span class=\"_58cm\">Rurais<\/span><\/span><\/a><\/p>\n<p>FONTE: Comunica\u00e7\u00e3o Marcha das Margaridas 2019 &#8211; Ang\u00e9lica Almeida<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"_3x-2\" data-ft=\"{&quot;tn&quot;:&quot;H&quot;}\">\u00a0<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas milhares de mulheres do campo, das \u00e1guas e das florestas, Margarida vive! 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